Mãe Sônia
Uma vida de acolhimento, ancestralidade e missão espiritual
Sonia Regina | Matriarca Calin – Cigana de Etnia Calon
Acampamento Barbosa – Matelândia, Paraná
A história de Mãe Sônia é marcada por dois nascimentos, duas famílias e um chamado espiritual que atravessou o tempo até revelar suas raízes.
Nascida em 31 de julho de 1969, ela foi entregue ao mundo pela família que lhe deu a vida. Poucos meses depois, em 22 de janeiro de 1970, foi novamente recebida — desta vez, pelos braços da família que a acolheu, cuidou de sua caminhada e lhe ofereceu um novo lar.
Entre essas duas histórias, permaneceu um pequeno objeto: uma medalhinha de Santa Sara Kali.
Discreta em tamanho, mas profunda em significado, a medalha foi durante muitos anos o único vínculo material com sua família de origem. Mesmo sem conhecer plenamente a história que ela representava, Mãe Sônia sentia que havia naquele símbolo uma presença ancestral, uma memória espiritual silenciosa e um caminho que ainda seria revelado.
O reencontro com a ancestralidade
Com o passar dos anos, aquilo que antes era apenas uma sensação começou a ganhar forma e significado.
O reencontro com suas raízes ciganas não aconteceu apenas como uma descoberta familiar. Foi um reconhecimento profundo de sua identidade, de sua ancestralidade e de sua missão.
Sonia Regina reconheceu-se como Matriarca Calin, cigana de etnia Calon, ligada ao Acampamento Barbosa, em Matelândia, no Paraná.
A espiritualidade cigana, a devoção a Santa Sara Kali e o compromisso com o cuidado passaram a ocupar um lugar central em sua vida. Aquilo que permanecia guardado em uma pequena medalha transformou-se em consciência, pertencimento e serviço espiritual.
A Mãe de Manto Azul, que silenciosamente acompanhou sua trajetória, tornou-se presença viva em sua caminhada.
A Origem da Medalha de Santa Sara
"Naqueles dias difíceis de perseguição e preconceito contra o povo cigano, meus pais biológicos deixaram o acampamento de Matelândia em busca de sobrevivência. Em um gesto de profundo amor e esperança, tomaram a decisão mais dolorosa de suas vidas: me entregar para adoção, acreditando que assim eu teria a oportunidade de viver. Isso aconteceu em 31 de julho de 1969.
Mas eles não partiram sem deixar um pedaço de sua história. Junto comigo, deixaram uma pequena medalha de Santa Sara Kali e um pedido muito especial: que eu recebesse o nome de Sônia, escolhido por minha mãe biológica, e que um dia eu jamais me envergonhasse da minha verdadeira essência e das minhas raízes.
Fui acolhida por uma mãe e um pai , que me amaram incondicionalmente, ganhei outro sobrenome e construí uma nova história. Porém, de alguma forma, aquela estrada antiga nunca deixou de me chamar de volta.
Durante muitos anos, essa memória permaneceu adormecida. Hoje, compreendo que esta medalha — o único vínculo que me conecta à minha família cigana — nunca foi apenas uma lembrança. Ela sempre foi um símbolo de proteção, de amor e da força da minha ancestralidade, guiando meus passos até o reencontro com minhas origens e missão.
Esta medalha é o testemunho de que as nossas raízes podem permanecer ocultas, mas jamais deixam de florescer."
Mãe Sônia
